Algoritmos do Poder · Relações de poder

Quem decide o que ganha espaço na sua tela?

Zuckerberg, Meta e a aproximação com Trump: o que os documentos mostram — e até onde a evidência permite ir.

Você abre o Instagram e encontra uma sequência de assuntos, pessoas e opiniões. A tela parece uma janela para o mundo. Mas toda janela tem uma moldura: critérios de recomendação, regras de moderação e decisões de quem administra a plataforma.

Para discutir esse poder, precisamos olhar além da palavra “algoritmo”. Quem tem autoridade dentro da empresa? Quais relações políticas são públicas? O que mudou nas regras? O caso da Meta permite colocar essas perguntas diante de documentos.

O algoritmo não existe fora das escolhas de quem o desenvolve, financia e governa.

O que está documentado

  1. Controle empresarial

    O poder dos votos

    O relatório anual de 2025 da Meta identifica Mark Zuckerberg como fundador, presidente do conselho e CEO, com controle da maioria do poder de voto. Isso lhe permite determinar resultados de matérias submetidas aos acionistas. Poder de voto não é sinônimo de possuir a maioria de todas as ações. [1]

  2. Posse de 2025

    US$ 1 milhão

    A Meta doou esse valor ao comitê de posse de Trump, segundo a Reuters. [2]

  3. 6 jan. 2025
    Data do anúncio

    Dana White no conselho

    A Meta anunciou a eleição do dirigente do UFC para o conselho de administração. White é um apoiador público de Trump. A data aqui se refere ao comunicado; a página de governança registra sua atuação no conselho desde dezembro de 2024. [3]

  4. 7 jan. 2025

    Mudança na checagem, nos Estados Unidos

    Em texto assinado por Joel Kaplan, a Meta anunciou a substituição da checagem por terceiros por Notas da Comunidade nos Estados Unidos, além de mudanças na moderação e na abordagem ao conteúdo político. A empresa apresentou a medida como uma tentativa de reduzir erros e ampliar a liberdade de expressão. [4]

  5. 12 jan. 2026

    Dina Powell McCormick na direção

    A ex-assessora de segurança nacional de Trump foi anunciada como presidente e vice-chairman da Meta, com atuação na estratégia e na execução de iniciativas da companhia. [5]

O limite da conclusão

Minha leitura é que esse conjunto sustenta uma interpretação de aproximação política. Ele não demonstra que Trump comande decisões individuais da Meta, nem explica, por si só, a distribuição de uma publicação específica.

Moderação e recomendação também são processos diferentes: uma decide como aplicar regras ao conteúdo; a outra organiza o que será mostrado. Elas podem se relacionar, mas não devem ser tratadas como se fossem a mesma coisa.

E o Brasil nessa conversa?

O debate interessa a quem usa essas plataformas para estudar, trabalhar, informar e participar da vida pública. Isso não autoriza transferir automaticamente para o Brasil uma mudança anunciada para os Estados Unidos.

A pergunta que proponho é mais concreta: quais regras valem para nós, quem pode alterá-las e como podemos contestar sua aplicação? Conhecer as relações de poder ajuda a formular essas cobranças. Atribuir intenções sem evidência enfraquece a discussão.

Antes de compartilhar, pergunte pela fonte

Observe a data, o país ao qual a medida se aplica e a diferença entre anúncio e implementação. Depois, separe o fato verificável da interpretação. Uma leitura crítica não exige certezas espetaculares; exige argumentos que possam ser examinados.

Os links abaixo permitem refazer esse caminho. É assim que a conversa sobre tecnologia ganha consistência e deixa de depender apenas da força de uma manchete.

Fontes para conferir

  1. Meta, Form 10-K do exercício de 2025. Documento apresentado em janeiro de 2026; seção sobre controle do poder de voto pelo CEO.
  2. Reuters, reportagem de 6 de janeiro de 2025. Doação ao comitê de posse e vínculos públicos de Dana White com Trump.
  3. Meta, anúncio dos novos integrantes do conselho, 6 de janeiro de 2025. Ver também Leadership & Governance para o início do mandato.
  4. Meta, “More Speech and Fewer Mistakes”, Joel Kaplan, 7 de janeiro de 2025. A análise considera o anúncio original, preservado na página com suas atualizações posteriores.
  5. Meta, nomeação de Dina Powell McCormick, 12 de janeiro de 2026.